quarta-feira, 4 de novembro de 2026

RESUMO. INFORMATIVO 908 DO STJ.

 

RESUMO. INFORMATIVO 908 DO STJ. JULGADOS SELECIONADOS PELO PROFESSOR FLAVIO TARTUCE

Processo         

AREsp 3.095.458-SP, Rel. Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Injeção de comandos (prompt injection). Inserção, em peça recursal, de comando oculto dirigido a sistema de inteligência artificial. Ato atentatório à dignidade da justiça. Litigância de má-fé. Aplicação de multa pessoal aos advogados.

Destaque

A inserção oculta, em peça processual, de comandos (prompt injection) destinados a interferir no processamento automatizado do documento afronta os deveres de boa-fé, lealdade, cooperação e transparência processual, configura ato atentatório à dignidade da Justiça, nos termos do art. 77, IV e VI, do Código de Processo Civil, e autoriza a aplicação da multa processual correspondente.

Informações do Inteiro Teor

Cinge-se a controvérsia a debater quais as consequências da conduta denominada prompt injection em peças processuais.

A literatura de segurança computacional define o conceito de prompt injection (injeção de comandos) como o ataque em que uma instrução ou um dado malicioso é inserido na entrada de aplicação integrada a modelo de linguagem, de modo que esta cumpra a tarefa escolhida por quem o insere, no lugar daquela que lhe fora inicialmente confiada, produzindo o resultado por ele pretendido.

Uma vez que o processo judicial passa a contar com instrumentos automatizados de leitura e extração de dados, torna-se possível a inserção, nas peças, de elementos textuais que não se dirigem ao julgador, mas à ferramenta, sob a forma de comandos redigidos para serem executados por sistema generativo de linguagem e subtraídos à leitura humana.

O Superior Tribunal de Justiça, à semelhança dos demais órgãos do Poder Judiciário, vale-se de ferramentas de inteligência artificial no apoio à triagem, à extração de dados e ao processamento de feitos, nos termos da Resolução CNJ n. 615/2025.

 

No caso, a Secretaria de Processamento de Feitos do STJ certificou que a petição de recurso especial contém conteúdo textual presente na camada de texto do arquivo e ausente da renderização visual da página.

A conjugação entre a forma da ocultação certificada nos autos e o caráter imperativo do texto demonstra que a petição buscou induzir sistema de linguagem generativa a afirmar a superação dos óbices de admissibilidade e a procedência do pleito.

Reforça essa conclusão a fragmentação de palavras por espaços indevidos ao longo de todo o trecho, verificada em expressões como "estão", "inexistência", "distinção", "atualização", "razões" e "7/ST J", o que tem como efeito impedir que a busca por expressões literais no documento localize o conteúdo inserido.

Objetivamente considerada, a inserção de comandos ocultos em peça processual, quando destinada a interferir no processamento automatizado do documento, é incompatível com os deveres de boa-fé, lealdade, cooperação e transparência processual. Tão grave quanto é a lesão à própria estrutura dialética do processo, pois a ocultação do conteúdo, qualquer que seja o mecanismo técnico empregado, tem como finalidade obstar o crivo judicial e o contraditório entre as partes, consoante determinam os arts. 7º, 9º e 10 do Código de Processo Civil.

O art. 5º do Código de Processo Civil, por sua vez, não descreve condutas típicas, mas impõe padrão de comportamento a todos os que participam do processo, e é dessa formulação que se extrai a plasticidade necessária para alcançar situações que o legislador não teria como antecipar.

Destaque-se que a elaboração e a transmissão de peças ao processo eletrônico constituem atividade privativa da advocacia (art. 1º, I, da Lei n. 8.906/1994), exercida mediante credencial de uso pessoal e exclusivo, de modo que a responsabilidade pelo conteúdo e pela integridade do arquivo protocolado recai sobre os procuradores constituídos nos autos, e não sobre a parte representada.

Sobre o tema, a Segunda Turma do STJ julgou recurso especial assemelhado no qual se identificou comando oculto inserido em peça subscrita por procurador municipal, tendo aplicado multa por litigância de má-fé sobre o valor da causa e determinado a comunicação do caso à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal.

Por sua vez, na Seção criminal do STJ, a Sexta Turma classificou a conduta consubstanciada na injeção de prompt como ato atentatório à dignidade da justiça, determinando a expedição de ofício à OAB e ao MPF com vistas à apuração de possível infração praticada pelos advogados subscritores e de delito de fraude processual.

A conduta em exame atenta contra a dignidade da Justiça e pauta-se pela má-fé processual, porquanto se dirige a interferir nos mecanismos institucionais de apoio à atividade jurisdicional, com potencial comprometimento da integridade e da confiabilidade do ambiente processual eletrônico, bem como da legitimidade das decisões judiciais.

Conclui-se, igualmente, que a conduta ora analisada se enquadra como ato atentatório à dignidade da Justiça, nos termos do art. 77, IV e VI, do CPC, consubstanciada no descumprimento dos deveres de não criar embaraços à efetivação das decisões jurisdicionais e de não praticar inovação ilegal no estado de fato de bem ou direito litigioso. A ausência de previsão específica no código processual não milita em favor dos advogados, visto que a burla pretendida resulta exclusivamente do trabalho advocatício e refoge às previsões processuais tradicionais.

Por essa razão, a aplicação da multa processual para responsabilização pela conduta não carece de identificação específica de autoria neste momento processual. A atuação no processo judicial é dos patronos da parte, e por isso a aplicação da multa deve abranger indistintamente os advogados constituídos nos autos, independentemente da assinatura digital e do protocolo da petição processual contaminada, não cabendo ao Superior Tribunal de Justiça, para esta finalidade, a apuração individualizada de responsabilidade - inclusive porque constam diversos nomes na petição.

Ademais, além da fixação da multa por ato atentório a dignidade da justiça, a Ordem dos Advogados do Brasil e o Ministério Público Federal devem ser oficiados para que, no âmbito de suas respectivas competências, nas esferas administrativa e criminal, apurem a responsabilidade da conduta praticada.

Informações Adicionais

Legislação

Resolução CNJ n. 615/2025.

Código de Processo Civil (CPC), art. 5º, art. 7º, art. 9º, art. 10 e art. 77, IV e VI.

Lei n. 8.906/1994, art. 1º, I.

Saiba mais:

Informativo N. 0902

Informativo N. 0902

Processo         

REsp 2.209.648-RJ, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO ADMINISTRATIVO

Ação de improbidade administrativa. Alterações promovidas pela Lei n. 14.230/2021. Condenação por dano moral coletivo. Possibilidade. Prova da lesão extrapatrimonial grave e repercussão social qualificada. Necessidade.

Destaque

O dano moral coletivo em improbidade administrativa não é automático e somente se reconhece excepcionalmente, mediante prova de lesão extrapatrimonial grave e repercussão social qualificada.

Informações do Inteiro Teor

A questão em discussão consiste em saber se é cabível a condenação por dano moral coletivo em ação de improbidade administrativa após a entrada em vigor da Lei n. 14.230/2021.

O Supremo Tribunal Federal, ao julgar as ADIs ns. 7156/DF e 7236/DF, atribuiu interpretação conforme à Constituição, em relação ao referido dispositivo legal, para fixar que "A ação por improbidade administrativa é repressiva, destinada à aplicação de sanções de caráter pessoal previstas nesta Lei, não podendo ser utilizada como substitutiva da ação civil pública", além de ter julgado inconstitucional a expressão "agentes públicos, inclusive políticos" prevista no respectivo parágrafo único. 

Em síntese, o STF preservou a premissa central do art. 17-D, segundo a qual a ação de improbidade administrativa possui natureza essencialmente repressiva e sancionatória, destinando-se à responsabilização dos agentes pela prática de atos ímprobos e à aplicação das sanções previstas na LIA, reconhecendo, porém, ao contrário do texto original, que se trata de uma ação de natureza cível. Essa compreensão decorre, inclusive, da disciplina constitucional do art. 37, § 4º, da Constituição Federal, que prevê as consequências específicas para os atos de improbidade administrativa.

A Suprema Corte, contudo, estabeleceu importante distinção entre a ação de improbidade e a ação civil pública, reconhecendo que esta última integra o microssistema de tutela coletiva e se destina à proteção dos interesses difusos e coletivos, inclusive do patrimônio público. Nesse contexto, a ação de improbidade não pode ser utilizada como sucedâneo ou substituto da ação civil pública, para veicular pretensões autônomas de tutela coletiva que, por sua natureza, devem ser deduzidas pelos instrumentos próprios desse microssistema.

Isso não significa, porém, que a proteção do patrimônio público esteja excluída da ação de improbidade. O patrimônio público pode ser tutelado no âmbito da LIA sempre que a pretensão estiver diretamente relacionada à prática de ato de improbidade administrativa e às consequências jurídicas previstas na legislação. O que se afasta, na verdade, é a utilização da ação de improbidade para formular pretensão autônoma de tutela coletiva desvinculada da responsabilização sancionatória pelo ato ímprobo, hipótese em que deverá ser utilizada a ação civil pública.

Com efeito, a finalidade do art. 17-D da LIA é de evitar que a ação de improbidade administrativa seja transformada em uma ação coletiva de utilidade ampla, utilizada para obter providências que não decorram propriamente da responsabilização por ato ímprobo, como, por exemplo, para obter obrigações de fazer, de não fazer, de invalidação de atos ou contratos, recuperação de bens, dentre outras. Isto é, não é possível descaracterizar a ação de improbidade administrativa como instrumento sancionatório e transformá-la em sucedâneo geral da ação civil pública.

Todavia, reconhecer a autonomia dos regimes jurídicos não significa admitir que eles devam operar de forma absolutamente separada, sobretudo quando uma mesma conduta ilícita, além de configurar ato de improbidade administrativa, produz lesão grave e qualificada a valores pertencentes à coletividade.

Em outras palavras, se a conduta praticada pelo agente caracteriza ato de improbidade administrativa, e, além de ensejar a responsabilização sancionatória prevista na lei, transbordar a esfera jurídica individual ou meramente patrimonial da Administração Pública, atingindo, de maneira grave e intolerável, valores e interesses transindividuais da coletividade, será possível o reconhecimento do dano moral coletivo no próprio âmbito da ação de improbidade, desde que demonstrada, no caso concreto, a efetiva lesão extrapatrimonial, sem prejuízo da aplicação das sanções previstas no art. 12 da Lei n. 8.429/1992.

A configuração do dano moral coletivo, portanto, ao contrário do que entendeu o Tribunal de origem, não decorre automaticamente da prática do ato ímprobo - não se trata de dano moral coletivo in re ipsa -, exigindo-se a demonstração de lesão relevante, de gravidade concreta e de repercussão que ultrapasse os interesses individuais ou a simples desconformidade da atuação administrativa com o ordenamento jurídico.

 

Quando a conduta, pela sua natureza, intensidade e repercussão, provoca verdadeiro abalo à confiança social na Administração Pública, comprometendo a credibilidade das instituições ou atingindo valores fundamentais compartilhados pela sociedade, não se está diante de mero ilícito administrativo, mas de lesão juridicamente relevante ao patrimônio moral coletivo.

Sob essa perspectiva, a tutela jurisdicional deve ser orientada pela máxima efetividade da proteção conferida aos interesses transindividuais, mediante interpretação sistemática e coerente do ordenamento jurídico.

Exemplo emblemático é justamente o caso julgado pela Segunda Turma do STJ no REsp. n. 2.094.489/SP em que a prática de atos de improbidade administrativa no contexto do esquema de cobrança de propinas conhecido como "Máfia dos Fiscais do ISS" provocou expressivo abalo social e comprometeu a credibilidade da Administração Pública, sendo plenamente justificada, naquele caso, a condenação ao pagamento de indenização por dano moral coletivo.

De fato, não seria adequado extrair do art. 17-D consequência que o próprio texto legal não estabeleceu expressamente, qual seja, a impossibilidade, em qualquer hipótese, de reconhecimento de dano moral coletivo decorrente de ato de improbidade administrativa.

Ademais, exigir, invariavelmente, o ajuizamento de uma demanda para a aplicação das sanções previstas no art. 12 da LIA e outra ação civil pública exclusivamente para a reparação do dano moral coletivo, quando ambas estiverem fundadas no mesmo conjunto de fatos e dependerem da análise da mesma conduta, importaria em fragmentar a tutela jurisdicional, em descompasso com os princípios da economia processual, da razoável duração do processo e do princípio da eficiência.

Com efeito, tal solução acarretaria a duplicação da atividade probatória, o aumento dos custos processuais e a possibilidade, inclusive, de decisões incongruentes sobre a existência, a gravidade e as consequências de um mesmo fato, podendo-se chegar, em processos distintos, a conclusões incompatíveis acerca da própria ocorrência da conduta, de sua repercussão social ou da intensidade da lesão causada à coletividade, o que não se mostra razoável.

Desse modo, uma vez demonstrado que a conduta imputada aos réus não se limitou à violação dos deveres funcionais ou à causação de prejuízo patrimonial, mas alcançou, de forma grave e concreta, valores extrapatrimoniais titularizados pela coletividade, mostra-se juridicamente possível o reconhecimento do dano moral coletivo, sem que isso implique desconsideração ou esvaziamento do art. 17-D da Lei 8.429/1992.

 

No caso concreto, contudo, não se verifica situação apta a caracterizar dano moral coletivo. Embora a prática de "rachadinha" no âmbito da Administração Pública seja grave e possa ensejar a responsabilização por improbidade administrativa, a mera configuração do ilícito não conduz, automaticamente, à conclusão de que tenha havido lesão autônoma e qualificada aos valores extrapatrimoniais da coletividade.

Com efeito, não se identificam, a partir das circunstâncias delineadas, elementos concretos que demonstrem repercussão social extraordinária, abalo relevante à confiança da coletividade nas instituições ou ofensa que ultrapasse os efeitos próprios da conduta ímproba. A gravidade do ilícito, embora suficiente para justificar as sanções cabíveis no âmbito da improbidade, não se confunde, por si só, com a ocorrência de dano moral coletivo.

Informações Adicionais

Legislação

Constituição Federal, art. 37, § 4º.

Lei n. 8.429/1992, art. 12 e art. 17-D.

Lei n. 14.230/2021.

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Informativo N. 0884

TERCEIRA TURMA

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Processo         

REsp 2.189.786-TO, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026, DJEN de 26/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO NOTARIAL E REGISTRAL, DIREITO CIVIL

Ação de cancelamento e restabelecimento de registro imobiliário. Atos registrais. Presunção juris tantum de veracidade. Cadeia dominial. Princípios da fé pública e da continuidade registral. Nulidade não demonstrada. Decisão extra petita. Inocorrência. Sobreposição de matrículas. Anterioridade do registro.

Destaque

A prevalência do registro mais antigo em confronto de cadeias dominiais hígidas não viola o regime do ônus da prova nem desconsidera a prova técnica, pois o critério jurídico de definição do domínio privilegia a anterioridade registral quando não há vício de origem na matrícula reputada preferencial.

Informações do Inteiro Teor

A controvérsia consiste em definir (I) se está caracterizada a decisão extra petita pelo reconhecimento da nulidade do título que embasa a pretensão da recorrente e (II) se estão presentes os requisitos para a decretação de invalidade do ato registral impugnado, em face do alegado vício de inconsistência na origem da matrícula do imóvel.

No caso, a controvérsia remonta à criação do Estado do Tocantins e às vicissitudes da abertura de matrículas no Registro de Imóveis de Palmas, capital da unidade federativa recém-criada, bem como aos seus desdobramentos posteriores. A partir disso, gerou-se uma situação complexa, tanto do ponto de vista fático quanto jurídico. Na origem, foi proposta ação ordinária de restabelecimento e cancelamento de registros de imóveis, cuja improcedência foi mantida pelo Tribunal de origem.

De acordo com o art. 1.245 do CC, a transferência da propriedade de bens imóveis entre vivos depende do registro do respectivo título no Registro de Imóveis. Justifica-se essa exigência tanto por razões de segurança jurídica quanto pela publicidade que propicia.

A fé pública é um dos princípios norteadores mais importantes do sistema de registro público da propriedade imobiliária. Embora a transcrição do título aquisitivo da propriedade no Registro de Imóveis seja revestida de presunção relativa (juris tantum) de veracidade, enquanto o registro não for eventualmente anulado, subsiste a presunção de validade.

Sendo relativa a presunção, é possível afastá-la; isso, porém, depende de prova robusta em sentido contrário. Assim, presume-se pertencer o direito real à pessoa em cujo nome se inscreveu, ou transcreveu, o registro.

Ao lado da fé pública, o direito registral tem um de seus pilares no princípio da continuidade do registro, segundo o qual todos os atos que são descritos na matrícula devem revelar a sequência lógica dos fatos; ou seja, devem estar registrados nela os sucessivos atos de transferência da propriedade do imóvel, sem interrupção.

A chamada "cadeia dominial" do imóvel, na expressão já consagrada, pressupõe justamente a necessidade de que, na respectiva matrícula, estejam registrados os sucessivos atos de transferência da propriedade, sem interrupção. Nesse sentido, "O princípio da continuidade registral (art. 195 da Lei de Registros Públicos) impõe apenas que as transmissões sucessivas mantenham encadeamento lógico e formal entre titulares" (AREsp 2.747.969/SP, Terceira Turma, DJEN 13/11/2025).

Havendo necessidade de retificação do registro ou da averbação, ela poderá ser realizada pelo registrador, de ofício ou a requerimento da parte interessada, nas hipóteses do art. 213 da Lei n. 6.015/1973. Tratando-se, porém, de nulidade de pleno direito do registro, uma vez demonstrada, pode ela ser decretada independentemente de ação direta (Lei n. 6.015/1973, art. 214). Em adição a isso, o art. 216 da Lei n. 6.015/1973 estabelece: "O registro poderá também ser retificado ou anulado por sentença em processo contencioso, ou por efeito do julgado em ação de anulação ou de declaração de nulidade de ato jurídico, ou de julgado sobre fraude à execução."

É necessário salientar, contudo, que a nulidade dos atos registrais pode ter efeitos drásticos e repercutir sobre a esfera jurídica dos integrantes da totalidade da cadeia dominial do imóvel; assim, depende de elementos que os evidenciem como inválidos, suficientemente fortes para afastar a presunção de veracidade a eles inerente. Entre as hipóteses que, em tese, podem dar ensejo ao reconhecimento da nulidade está a da sobreposição de matrículas; ao propiciar a formação de distintas cadeias dominiais sobre o mesmo imóvel, tal problema revela-se de difícil solução.

A esse respeito, havendo sobreposição de matrículas, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça já decidiu que deve ser aplicada a prioridade registral: "Não se caracteriza negativa de prestação jurisdicional quando o acórdão enfrenta as questões essenciais, reconhece a sobreposição de matrículas válidas, explicita a irrelevância da posse na definição do domínio e aplica a prioridade registral com base na cadeia dominial mais remota, afastando vício de fundamentação [...]. A prevalência do registro mais antigo em confronto de cadeias dominiais hígidas não viola o regime do ônus da prova nem desconsidera a prova técnica, pois o critério jurídico de definição do domínio privilegia a anterioridade registral quando não há vício de origem na matrícula reputada preferencial" (AREsp 3.107.384/MT, Terceira Turma, DJEN 29/5/2026). A prioridade, portanto, pertence ao registro mais antigo.

Ademais, verifica-se que a Corte Estadual, ao reafirmar a sentença de improcedência, baseou-se tanto na ausência de motivos para o reconhecimento da nulidade do ato registral quanto na análise da cadeia dominial correspondente ao imóvel sob litígio, de modo que não se configura o julgamento extra petita.

Na hipótese, considerando que a pretensão da recorrente diz respeito não apenas ao cancelamento da matrícula A, mas também ao restabelecimento das matrículas B, C e D, o enfrentamento da questão atinente à validade do título que ela possui é absolutamente necessário; constitui, em última análise, pressuposto lógico do pedido formulado. Tratando-se de pretensão relativa à decretação de nulidade e ao restabelecimento de matrículas, não se pode deixar de analisar a cadeia dominial em sua integralidade.

Portanto, a partir dos elementos de ponderação firmados na instância de origem, conclui-se que a transferência da propriedade aos recorridos, elos subsequentes da cadeia dominial, deu-se de forma hígida, sendo o seu título aquisitivo anterior ao da recorrente. Ao reconhecer a anterioridade do registro, o Tribunal a quo não destoa do entendimento já manifestado pelo Superior Tribunal de Justiça na hipótese de sobreposição de matrículas, sem que se possa vislumbrar a alegada violação ao princípio da continuidade registral.

Informações Adicionais

Legislação

Código Civil (CC), art. 1.245

Lei n. 6.015/1973 (Lei de Registros Públicos), art. 195, art. 213, art. 214 e art. 216

Saiba mais:

Informativo N. 0897

Processo         

REsp 2.263.523-SP, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026, DJEN 26/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO DO CONSUMIDOR

Plano de saúde. Tratamento para diabetes. Cobertura de sensor contínuo de glicose. Classificação pela ANVISA como produto para saúde ou dispositivo médico. Tratamento não elencado no rol da ANS. Cobertura excepcional. Observância dos parâmetros estabelecidos pelo STJ e STF.

Destaque

1 - Não há autorização legal expressa à exclusão de cobertura pela operadora do plano de saúde do sensor contínuo de glicose (Freestyle libre 2), tendo em vista que, assim como o sistema de infusão contínua de insulina (bomba de insulina), trata-se de "produto para a saúde" ou "dispositivo médico", assim definido pela Anvisa, e não pode ser classificado como medicamento de uso domiciliar ou órtese, razão pela qual não se enquadra nas exceções previstas nos incisos VI e VII do art. 10 da Lei n. 9.656/1998.

 

2 - Na mesma linha do decidido pela Segunda Seção do STJ, ao fixar as teses do Tema 1316/STJ, a análise quanto à obrigatoriedade de custeio, pela operadora do plano de saúde, do sensor contínuo de glicose, por ser tratamento não elencado no rol da ANS, deve seguir a orientação da Segunda Seção, conforme o julgamento do REsp 2.038.333/AM (julgado em 24/4/2024, DJe de 8/5/2024), bem como as teses fixadas pelo STF no julgamento da ADI 7.265/DF (Plenário, DJE de 19/09/2025).

Informações do Inteiro Teor

Cinge-se a controvérsia a decidir sobre a obrigação de cobertura, pela operadora do plano de saúde, de sensor contínuo de glicose.

No caso, o Tribunal de origem decidiu que, por força do art. 10, VI, da Lei n. 9.656/1998, o sensor contínuo de glicose não é de cobertura obrigatória.

Com efeito, no julgamento do Tema 1.316/STJ, a Segunda Seção fixou, dentre outras, a tese de que "o sistema de infusão contínua de insulina não se enquadra nas exceções dos incisos VI e VII do art. 10 da Lei n. 9.656/1998, sendo inválidas as cláusulas contratuais que de qualquer forma excluírem a cobertura de tal sistema".

Oportuno ressaltar que, na ocasião do julgamento do REsp 2.126.466/MS (Terceira Turma, DJe de 26/11/2024), mencionado pelo Relator do referido precedente, ficou decidido que não se pode atribuir ao conceito de medicamento, previsto no inciso VI do art. 10 da Lei n. 9.656/1998, interpretação extensiva para abarcar, também, os produtos para saúde que com ele não se confundem, ainda que se destinem a tratamento domiciliar.

Aos fundamentos acima soma-se à recente Lei n. 15.439/2026, que trata dos direitos das pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 e de ações para promover sua participação plena e igualitária na sociedade. Embora ainda em vacatio legis, a lei já revela a intenção do legislador de garantir - pelo Poder Público e, quando cabível, pela iniciativa privada - o acesso aos medicamentos destinados ao tratamento da doença, bem como aos insumos necessários à administração da insulina e ao monitoramento da glicemia (art. 3º, I).

Diante de todo o exposto, e considerando os recentes julgados da Terceira Turma no mesmo sentido do acórdão recorrido (AgInt no REsp n. 2.205.805/GO, julgado em 18/5/2026, DJEN de 21/5/2026; AgInt no AREsp n. 3.039.312/DF, julgado em 18/5/2026, DJEN de 21/5/2026), propõe-se um novo olhar sobre a questão, a fim de que se reconheça, ao contrário do que decidiu o Tribunal de origem, que o sensor contínuo de glicose (Freestyle libre 2), assim como o sistema de infusão contínua de insulina (bomba de insulina), não pode ser classificado como medicamento de uso domiciliar ou órtese, razão pela qual não se enquadra na regra do art. 10, VI e VII, da Lei n. 9.656/1998 e, portanto, não há autorização legal expressa à exclusão de sua cobertura pela operadora do plano de saúde.

 

Trata-se, como demonstrado, de "produto para a saúde" ou "dispositivo médico", assim definido pela Anvisa, conforme a RDC n. 751/2022. Tal conclusão é corroborada, inclusive, por dezenas de Notas Técnicas emitidas pelo NatJus, publicadas no Sistema e-NatJus do CNJ (disponível em: https://www.pje.jus.br/e-natjus/pesquisaPublica.php), das quais se extrai a existência de evidências científicas sobre a eficácia e segurança do produto, os benefícios/efeitos/resultados esperados e, ao final, a conclusão favorável justificada em diversos casos.

Em consequência, na mesma linha do decidido pela Segunda Seção, ao fixar as teses do Tema 1.316/STJ, a análise quanto à obrigatoriedade de custeio, pela operadora do plano de saúde, do sensor contínuo de glicose, por ser tratamento não elencado no rol da ANS, deve seguir os parâmetros estabelecidos pela Segunda Seção no julgamento dos EREsps 1.886.929/SP e 1.889.704/SP (julgados em 08/06/2022, DJe de 03/08/2022) ou aqueles trazidos pela Lei n. 14.454/2022, que incluiu o § 13 ao art. 10 da Lei n. 9.656/1998, conforme a orientação da Segunda Seção no julgamento do REsp 2.038.333/AM (julgado em 24/4/2024, DJe de 8/5/2024).

Importante destacar que, na aplicação do § 13 do art. 10 da Lei n. 9.656/1998, deve ser observado o cumprimento dos requisitos recentemente estabelecidos pelo STF no julgamento da ADI 7.265/DF (Plenário, DJE de 19/09/2025).

Informações Adicionais

Legislação

Lei n. 9.656/1998, art. 10, VI e VII e § 13.

Precedentes Qualificados

Tema 1316/STJ.

ADI 7.265/DF.

Saiba mais:

Recurso Repetitivo / DO CONSUMIDOR - PLANO DE SAÚDE

Jurisprudência em Teses / EDIÇÃO N. 271: PLANOS DE SAÚDE V

Informativo N. 0023 - Edição Extraordinária

Informativo N. 0012 - Edição Extraordinária

Processo         

REsp 2.296.199-SC, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026, DJEN 26/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO CIVIL

Ação de sonegados. Interesse processual. Ajuizamento antes do encerramento do inventário. Inequívoca resistência dos herdeiros à colação. Possibilidade.

Destaque

Há interesse processual para o ajuizamento da ação de sonegados contra os herdeiros, caso demonstrada a inequívoca oposição à colação dos bens indicados como objeto de fraude, ainda que em momento processual anterior ao encerramento do inventário.

Informações do Inteiro Teor

A controvérsia debate o interesse de agir na propositura de uma ação de sonegados quando, antes do encerramento do inventário, há clara pretensão resistida dos réus em incluir os bens listados como objeto de fraude.

Na presente ação de sonegados, o inventariante aponta que quinze imóveis teriam sido adquiridos com recursos do falecido, e que não foram colacionados pelas rés, suas filhas.

As rés pleitearam o reconhecimento da ausência de interesse de agir, sob a argumentação de que a propositura da ação de sonegados apenas poderia ocorrer com o encerramento do inventário ou com a declaração de que não existem outros bens a inventariar, nos moldes dos arts. 621 do Código de Processo Civil e 1.996 do Código Civil.

Porém, o juízo singular entendeu que havia interesse na hipótese, pois o inventário foi proposto em 2012 e até então os requeridos não teriam arrolado os referidos bens, tese que foi confirmada com o julgamento do agravo de instrumento.

Os arts. 621 do Código de Processo Civil e 1.996 do Código Civil preveem duas situações distintas para a definição do marco temporal para a propositura da ação de sonegados, a depender de quem ocupa o polo passivo do feito. A ação apenas poderá ser proposta após encerrada a descrição de bens, o que ocorrerá com a declaração do inventariante de que não existem mais bens por inventariar ou, se for proposta contra outro herdeiro, após a sua arguição e manifestação no sentido de que não possui os bens questionados.

 

A doutrina, ao interpretar os referidos dispositivos legais, entende que a expressão legal "descrição de bens" equivaleria às últimas declarações, para o inventariante, e, para os demais herdeiros, o momento correto para propor a ação seria quando restar evidenciado o intuito fraudulento.

Destaca-se, ainda, que a sonegação, também no caso dos herdeiros, não pressupõe a sua interpelação, sendo apenas necessário que esteja caracterizada a arguição, a omissão ou a resistência em apresentar os bens. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça já expôs que, no caso do inventariante, a ausência das últimas declarações, informando expressamente que não há outros bens a inventariar, é condição para constituir o interesse processual para a utilização da ação de sonegados, tendo em vista que, em momento anterior a essa etapa, seria ainda possível retificar a descrição dos bens.

Dessa forma, o interesse de agir estará configurado para a ação de sonegação após a declaração do inventariante de que não existem outros bens a inventariar - o que comumente ocorre na fase das últimas declarações - ou, se proposta contra os herdeiros, a propositura pode ocorrer a qualquer momento, desde que já esteja evidente a intenção de desviar os bens tidos como sonegados.

Na hipótese, o acórdão recorrido entendeu que a contestação da ação de sonegados já teria demonstrado, de forma inequívoca, a resistência das herdeiras em colacionar os bens listados como objeto de fraude/simulação.

No caso, portanto, a ação de sonegados apenas seria desnecessária, faltando aos autores o interesse de agir, se ainda houvesse a possibilidade de retificação dos bens no inventário, o que não restou configurado.

Nesse sentido, o acórdão consignou que havia declaração expressa, na contestação, que comprovou que as rés se opuseram à juntada dos bens listados pelos autores, demonstrando, assim, resistência à pretensão exposta e postura contraditória à possibilidade de posterior retificação das declarações.

A partir disso, a Corte local corretamente concluiu pela presença do interesse processual - caracterizado pela pretensão resistida - e pela possibilidade de dar seguimento à ação de sonegados.

Acrescenta-se, ainda, que, nesse cenário específico, impõe-se privilegiar a instrumentalidade das formas e a primazia do mérito de modo a manter hígida a presente ação, tendo em vista que já houve, inclusive, o próprio julgamento do mérito, no qual se confirmou a resistência já observada inicialmente pela instância ordinária.

Informações Adicionais

Legislação

Código de Processo Civil (CPC), art. 621;

Código Civil (CC), art. 1.996.

Saiba mais:

Informativo N. 0895

Informativo N. 0166

Pesquisa Pronta / DIREITO CIVIL - SUCESSÕES

Informativo N. 0758

QUARTA TURMA

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Processo         

REsp 1.890.939-MG, Rel. Ministro Luís Carlos Gambogi (Desembargador convocado do TJMG), Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO CIVIL

Condomínio edilício. Regimento interno. "Taxa geral de lazer". Cobrança exclusiva dos possuidores não proprietários. Deliberação assemblear. Controle judicial de legalidade. Possibilidade. Ausência de justificativa objetiva para o tratamento diferenciado. Princípio da isonomia. Ilegalidade.

Destaque

É indevida a cobrança da denominada "taxa geral de lazer" exclusivamente dos possuidores não proprietários, em razão da locação, cessão ou empréstimo da unidade imobiliária, visto que a mera condição jurídica do ocupante, desacompanhada da demonstração de incremento específico das despesas condominiais, não constitui critério objetivo suficiente para legitimar o tratamento diferenciado instituído pelo regimento interno.

Informações do Inteiro Teor

Cinge-se a controvérsia a definir se é válida a disposição regimental, regularmente aprovada em assembleia geral de condôminos, que instituiu a denominada "taxa geral de lazer", exigida dos possuidores não proprietários em razão da locação, cessão ou empréstimo da unidade imobiliária.

 

Consoante se extrai do art. 1.339 do Código Civil, os direitos de cada condômino às partes comuns são inseparáveis de sua propriedade exclusiva. Nesse sentido, ao alugar (ou ceder a qualquer título) seu imóvel a terceiro, é também cedido o direito de uso das partes comuns.

Assim, ao locatário, cessionário ou comodatário devem ser assegurados os mesmos direitos de uso do proprietário, sendo indevida a cobrança de taxa exclusivamente em face dos "possuidores não proprietários".

No que tange ao locatário, a própria legislação de regência já lhe impõe o pagamento das despesas ordinárias do condomínio, conforme se depreende do art. 23, inciso XII e § 1º, da Lei n. 8.245/1991. Entre tais despesas, inserem-se, de modo expresso, as de "manutenção e conservação das instalações e equipamentos de uso comum destinados à prática de esportes e lazer", nos termos do art. 23, § 1º, alínea e, da Lei n. 8.245/1991. Com efeito, sem embargo da natureza exemplificativa do rol, depreende-se que as despesas em comento já se destinam a custear os serviços indispensáveis à conservação do condomínio, transferindo-se a responsabilidade pelo seu pagamento ao locatário.

No que concerne ao cessionário de direitos relativos às unidades autônomas, o próprio Código Civil, em seu art. 1.334, § 2º, o equipara ao proprietário para efeito de pagamento das contribuições necessárias ao atendimento das despesas ordinárias e extraordinárias do condomínio, de modo que, longe de configurar terceiro estranho à coletividade condominial, submete-se ao mesmo regime de rateio imposto aos condôminos proprietários. Por fim, no que respeita ao comodatário, idêntica conclusão se impõe. Nos termos do art. 584 do Código Civil, o comodatário não poderá jamais recobrar do comodante as despesas feitas com o uso e gozo da coisa emprestada.

Verifica-se, assim, que o critério eleito para a incidência da contribuição não se vincula objetivamente à intensidade da utilização das áreas comuns nem à efetiva geração de despesas adicionais, mas à condição jurídica ou pessoal daquele que ocupa a unidade.

Nesse cenário, embora seja reconhecida a autonomia dos condôminos para disciplinar a utilização das áreas comuns e estabelecer critérios de custeio das despesas, não se identifica fundamento objetivo apto a justificar a imposição de contribuição adicional exclusivamente aos possuidores não proprietários.

A mera condição jurídica do ocupante da unidade, desacompanhada da demonstração de incremento específico das despesas condominiais, não constitui critério objetivo suficiente para legitimar o tratamento diferenciado instituído pelo regimento interno, importando, na hipótese, ofensa ao princípio constitucional da isonomia (art. 5º, caput, da Constituição Federal).

Informações Adicionais

Legislação

Constituição Federal (CF), art. 5º, caput;

Código Civil (CC), art. 584, art. 1.334, § 2º e art. 1.339;

Lei n. 8.245/1991, art. 23, inciso XII e § 1º.

Processo         

Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Gratuidade de justiça. Ação de alimentos com carta rogatória para o exterior. Custos de tradutor juramentado e demais despesas para instrução da carta rogatória. Inclusão.

Destaque

O benefício da gratuidade de justiça concedido ao menor autor da ação de alimentos deve alcançar a remuneração do tradutor juramentado exigido para a carta rogatória, cabendo ao Estado custear tal encargo com possibilidade de posterior ressarcimento, nos termos dos tratados e da legislação interna.

Informações do Inteiro Teor

Cinge-se a controvérsia em definir se, em ação de alimentos ajuizada por menor contra o seu genitor, residente no exterior, os benefícios da gratuidade de justiça deferidos em favor do alimentado alcançam as custas relativas ao pagamento da tradução de documento oficial em língua portuguesa para outro idioma para fins de instrução de carta rogatória, haja vista os ditames do art. 98, § 1°, VI, do CPC.

O direito fundamental de acesso amplo à Justiça e de assistência jurídica integral e gratuita (CF, art. 5º, LXXIV) impõe interpretação em relação à gratuidade de justiça que efetivamente viabilize o ingresso e o prosseguimento da ação por parte dos hipossuficientes, de modo a não tornar inviável a tutela jurisdicional dos alimentos por impossibilidade econômica de arcar com despesas indispensáveis, como a tradução de documentos do processo.

O art. 98, § 1º, VI, do CPC/2015, ao prever a remuneração do intérprete ou tradutor "nomeado para apresentação de versão em português de documento redigido em língua estrangeira", tem redação exemplificativa e não restritiva, devendo ser interpretado sistematicamente com o caput do art. 98 e com o regime da gratuidade da prova pericial (CPC, art. 95, §§ 2º e 3º), sob pena de discriminação injustificada entre traduções de entrada (língua estrangeira para o português) e traduções de saída (português para língua estrangeira) igualmente necessárias ao desenvolvimento do processo.

A jurisprudência consolidada do STJ e do STF afirma que, nas hipóteses em que o beneficiário da assistência judiciária gratuita é sucumbente, o ônus de arcar com honorários periciais recai sobre o Estado, em razão do dever constitucional de prestar assistência judiciária aos necessitados, entendimento que se estende, por equiparação normativa, à remuneração de intérpretes e tradutores nomeados pelo juízo (CPC/2015, art. 98, § 1º, VI). As normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em especial a Resolução n. 326/2020 (que altera a Resolução n. 127/2011), recomendam que os tribunais destinem dotação orçamentária específica para pagamento de honorários de perito, tradutor e intérprete quando o responsável pelo pagamento for beneficiário da justiça gratuita, estabelecendo parâmetros objetivos para a fixação e o adiantamento de tais verbas, o que reforça a compreensão de que tais despesas integram o âmbito da assistência judiciária gratuita.

No plano internacional, a Convenção de Nova York sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826/1965), a Convenção da Haia sobre alimentos e a Convenção Interamericana sobre obrigação alimentar, vem adotando a tendência de amortecimento dos custos do processo, o que inclui, por óbvio, o custo sobre as traduções. A Convenção sobre a Prestação de Alimentos no Estrangeiro (art. IX) assegura aos demandantes, nas ações de alimentos, tratamento e isenções de custos e despesas equivalentes aos residentes no Estado em que proposta a ação, vedando caução "judicatum solvi", o que reforça a impossibilidade de exigir do credor de alimentos hipossuficiente, beneficiário da justiça gratuita, o prévio custeio de tradução e de outras despesas para cumprimento da carta rogatória.

A possibilidade de o Poder Público arcar com honorários de perito em cartas rogatórias, reconhecida pela jurisprudência do STJ, demonstra que não há óbice à assunção, pelo Estado, dos custos de tradução necessários ao exercício da defesa ou à efetivação de direitos fundamentais, quando a parte está sob o pálio da justiça gratuita, afastando-se a interpretação literal restritiva do art. 98, § 1º, VI, do CPC/2015.

Assim, o benefício da gratuidade de justiça concedido ao menor autor da ação de alimentos deve alcançar a remuneração do tradutor juramentado para a tradução do conteúdo processual do português para o idioma estrangeiro exigido para a carta rogatória, cabendo ao Estado custear tais encargos, com possibilidade de posterior ressarcimento, nos termos dos tratados e da legislação interna.

 

Informações Adicionais

Legislação

Constituição Federal (CF), art. 5º, LXXIV.

Código de Processo Civil (CPC), art. 95, §§ 2º e 3º e art. 98, § 1º, VI.

Resolução do CNJ n. 326/2020.

Decreto n. 56.826/1965.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

RESUMO. INFORMATIVO 907 DO STJ.

 

RESUMO. INFORMATIVO 907 DO STJ.

SEGUNDA SEÇÃO

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Processo         

EAREsp. 2.422.743-BA, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Segunda Seção, por unanimidade, julgado em 3/9/2026, DJEN 11/9/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO CIVIL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Contrato de promessa de compra e venda. Atraso na entrega de imóvel. Agente financeiro em sentido estrito. Falta de legitimidade passiva do credor fiduciário da obra.

Destaque

1. Atuando o banco como agente financeiro em sentido estrito, na condição de credor fiduciário da incorporação imobiliária, não tem legitimidade passiva nas ações movidas por adquirentes das unidades por vício ou atraso na obra.

2. A mera fiscalização das obras pelo agente financeiro - em virtude da previsão contratual que vincula a liberação das parcelas do empréstimo à evolução do empreendimento - não permite, por si só, presumir que o banco age como executor e assume a responsabilidade solidária por vícios e atrasos na obra.

Informações do Inteiro Teor

Cinge-se a divergência a definir o alcance do art. 31-A, § 12, da Lei n. 4.591/1964, em face das regras do Código de Defesa do Consumidor sobre a responsabilidade solidária dos integrantes da cadeia de consumo, nos casos em que o Banco celebra, com a construtora, contratos de garantia hipotecária e cessão fiduciária de recebíveis, que preveem a fiscalização da obra pela financiadora, ante a vinculação do financiamento à evolução do empreendimento de incorporação imobiliária.

No caso, o acórdão embargado da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, assim como o Tribunal local, entendeu que o simples fato de a instituição financeira fiscalizar a obra e vincular o financiamento à evolução do empreendimento é suficiente para inferir que a financiadora é agente executora da obra, e não mero agente financeiro. Por isso, teria legitimidade passiva para responder pelo atraso na entrega do imóvel.

 

Por outro lado, o paradigma da Quarta Turma do STJ (AgInt no AgInt no REsp 1.875.510/SP) enfrenta a questão da legitimidade passiva da mesma instituição financeira para responder pelo atraso na entrega de imóvel cuja construção foi por ela financiada, com garantia de cessão fiduciária dos recebíveis.

Diante desse contexto - muito semelhante a este caso -, o Tribunal de origem manteve o banco no polo passivo, ao fundamento de que a instituição financeira recebia diretamente os pagamentos dos compradores, sendo, portanto, beneficiária direta dos valores investidos pelo consumidor.

Interposto o recurso especial, a Quarta Turma do STJ a ele deu provimento, por entender que a cessão fiduciária dos recebíveis do empreendimento não altera a natureza da atuação de financiador para parceiro comercial, gestor ou executor da obra. Afastou, portanto, a responsabilidade solidária da financiadora, baseada na cadeia de consumo, e reconheceu a falta de legitimidade passiva da instituição financeira, ante a sua atuação como agente financeiro em sentido estrito. A posição de mera cessionária fiduciária afasta sua responsabilidade por vícios de construção ou pelo inadimplemento contratual da incorporadora.

Vê-se que a Terceira Turma, ao julgar o caso, fundamentou a legitimidade passiva e a responsabilidade solidária do banco na premissa de que a instituição excedeu os limites de um mero financiador. O acórdão embargado considerou que, ao vincular o cronograma físico da obra à arrecadação das parcelas e assumir a fiscalização exclusiva da aplicação dos recursos, o banco agiu como "agente executor e fiscalizador", e não como "simples mutuante". Em contrapartida, a Quarta Turma afastou a legitimidade do banco, credor fiduciário em sentido estrito, sem assunção de obrigações pela execução da obra, com fundamento no art. 31-A, § 12, da Lei n. 4.591/1964.

Ao fim e ao cabo, a divergência está no enquadramento jurídico do credor fiduciário que fiscaliza a evolução da obra para liberar o empréstimo: a Terceira Turma vê, nisso, ingerência na execução do empreendimento; a Quarta Turma vê como exercício legítimo da garantia fiduciária de agente financeiro em sentido estrito.

Deve prevalecer o entendimento da Quarta Turma do STJ. A atuação do Banco como credor fiduciário do empreendimento não acarreta a sua legitimidade passiva nas demandas sobre atraso na obra. O simples fato de o agente financeiro fiscalizar a obra e vincular o desembolso das parcelas do financiamento à evolução do empreendimento não implica sua responsabilidade pela execução do empreendimento.

A legitimidade ad causam, como toda condição da ação, deve ser aferida em estado de asserção, conforme reconhecem os inúmeros precedentes do STJ. Quer dizer: não basta apenas que a parte autora argumente, abstratamente, haver responsabilidade do agente financeiro pela obra. É preciso que os fatos afirmados na inicial, uma vez enquadrados pelo juiz conforme a lei em tese, sejam suficientes para deles deduzir a existência de relação jurídica entre as partes, em que o autor é titular do interesse jurídico subordinante e o réu do interesse jurídico subordinado.

No caso, dos fatos afirmados nas ações de que tratam os acórdãos embargado e paradigma, não se deduz a legitimidade passiva do agente financiador que atua como credor fiduciário da incorporação imobiliária.

Há muito a lei já fornece, explicitamente e inequivocamente, a resposta para essa questão, conforme o § 12 do art. 31-A da Lei n. 4.591/1964, ao dispor que: "A contratação de financiamento e constituição de garantias, inclusive mediante transmissão, para o credor, da propriedade fiduciária sobre as unidades imobiliárias integrantes da incorporação, bem como a cessão, plena ou fiduciária, de direitos creditórios decorrentes da comercialização dessas unidades, não implicam a transferência para o credor de nenhuma das obrigações ou responsabilidades do cedente, do incorporador ou do construtor, permanecendo estes como únicos responsáveis pelas obrigações e pelos deveres que lhes são imputáveis".

O credor fiduciário da incorporação imobiliária não responde por vícios e atraso na obra, ressalvada, a hipótese de previsão contratual explicitamente contrária. A assunção de responsabilidade solidária não se presume; resulta da lei ou da vontade das partes (art. 265 do Código Civil).

Daí por que é equivocado inferir - como fizeram o Tribunal de origem e a Terceira Turma no caso dos autos - que o banco assume a responsabilidade pela obra apenas porque fiscaliza o empreendimento e vincula a liberação das parcelas do empréstimo à evolução da obra.

A fiscalização da obra pela instituição financeira e a vinculação da liberação das parcelas à evolução do empreendimento têm explicação óbvia e legítima: o banco tem interesse em que o empréstimo seja utilizado para os fins descritos no contrato de financiamento. O eventual desvio dos recursos enfraquece ou aniquila a própria garantia fiduciária.

Se o banco constatar a existência de fraude, o desvio dos recursos ou a incapacidade da construtora de evoluir a obra no prazo acordado, a instituição bancária poderá rescindir o contrato de financiamento. Em relação à construtora, o agente financeiro tem o direito e não o dever de fiscalizar, o que não pode ser invocado para a responsabilização da financiadora por vícios e atraso na construção.

 

O art. 31-A, § 12, da Lei n. 4.591/1964 veda explicitamente esse tipo de presunção de responsabilidade solidária da financiadora. As atuações como credor fiduciário da incorporação "não implicam a transferência para o credor de nenhuma das obrigações ou responsabilidades do cedente, do incorporador ou do construtor".

É nítida a opção legítima da lei: afastar a responsabilidade solidária da financiadora pela execução da obra, em vista da diminuição do risco de capital e, consequentemente, do custo do crédito para incorporação imobiliária.

Não pode a Segunda Seção do STJ, enquanto órgão fracionário, recusar a incidência da norma no caso dos autos. Isso importaria em negar-lhe vigência sem declarar a sua inconstitucionalidade pela maioria absoluta da Corte Especial, o que é vedado pela Súmula Vinculante 10/STF.

E nem se diga que se trata apenas de interpretar sistematicamente a legislação para fazer prevalecer as regras gerais de responsabilidade solidária do CDC sobre a previsão específica e posterior da Lei n. 4.591/1994. Praticamente, todos os empreendimentos de incorporação imobiliária envolvem relação consumerista. Afastar o § 12 do art. 31-A da Lei n. 4.591/1964 esvaziaria completamente o âmbito de incidência da norma. O diploma legal se tornaria letra morta, sem sobrar espaço de aplicação - apesar de não ter sido declarada a sua inconstitucionalidade pela Corte Especial -, o que afronta a Súmula Vinculante 10/STF.

Ainda que não houvesse a explícita previsão legal do § 12 do art. 31-A da Lei n. 4.591/1964, a questão da legitimidade passiva do agente financeiro da incorporação imobiliária encontra-se pacificada na jurisprudência do STJ.

A mera circunstância de o contrato de financiamento ser celebrado durante a construção - ou no mesmo instrumento do contrato de compra e venda celebrado com o vendedor -, não implica a responsabilidade do agente financeiro pela solidez, perfeição e entrega tempestiva da obra.

A instituição financeira apenas tem responsabilidade pelo cumprimento das obrigações que assume para com o mutuário referentes ao cumprimento do contrato de financiamento, ou seja, a liberação do empréstimo, nas épocas acordadas, e com a cobrança dos encargos também estipulados no contrato.

Figurando-a apenas como credora fiduciária, não tem responsabilidade pelo atraso da obra ou pela perfeição do trabalho realizado pela construtora escolhida pelo mutuário. Tampouco responde pela exatidão dos cálculos e projetos feitos por profissionais não contratados e nem remunerados pelo agente financeiro.

Impor aos agentes financeiros esse ônus, em caráter solidário, sem previsão legal e nem contratual, implicaria aumentar os custos dos financiamentos imobiliários. A instituição financeira passaria a ter de contar com quadros de engenheiros para avaliar detalhadamente todos os projetos, fiscalizar, diariamente, a correção técnica, os materiais empregados e a execução de todas as obras por ela financiadas, passo a passo, e não apenas para fiscalizar, periodicamente, o correto emprego dos recursos emprestados a fim de liberar a próxima parcela do financiamento.

Fosse o caso de atribuir legitimidade à instituição financeira nas causas em que se discute vício de construção de imóvel por ela financiado (financiamento stricto sensu), deveria ela figurar no polo ativo da demanda, ao lado dos adquirentes dos imóveis, os mutuários. Isso porque a instituição financeira tem interesse direto na solidez e perfeição da obra, uma vez que os apartamentos lhe foram dados em hipoteca e os recebíveis do empreendimento em cessão fiduciária.

Ante o exposto, não responde o banco, perante o mutuário, por vício ou atraso na execução da obra cometido pela construtora. Sendo assim, resolve-se a divergência jurisprudencial adotando a orientação consolidada na Segunda Seção, no sentido de que:

1) O agente financeiro em sentido estrito que atua como credor fiduciário da incorporação imobiliária não tem legitimidade passiva nas ações movidas por adquirentes das unidades por vício ou atraso na obra.

2) A mera fiscalização das obras pelo agente financeiro - em virtude da previsão contratual que vincula a liberação do empréstimo à evolução do empreendimento - não permite, por si só, presumir que o banco age como executor e assume a responsabilidade solidária por vícios e atrasos na obra.

Informações Adicionais

Legislação

Lei n. 4.591/1964, art. 31-A, § 12.

Código Civil (CC), art. 265.

Súmulas

Súmula Vinculante 10/STF.

TERCEIRA TURMA

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Processo         

REsp 2.279.683-RS, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 6/10/2026, DJEN 9/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO DO CONSUMIDOR

Proteção patrimonial mutualista. Associação de proteção veicular. Código de Defesa do Consumidor. Incidência. Cláusulas restritivas de permanência no local do sinistro e de comunicação em prazo peremptório. Abusividade.

Destaque

Nas operações de proteção patrimonial mutualista, consideram-se abusivas as cláusulas que impõe ao associado o dever de permanecer no local do acidente, sob pena de perda automática da cobertura, bem como a estipulação de prazo peremptório para fins de comunicação do acidente.

Informações do Inteiro Teor

A controvérsia busca definir se são abusivas as cláusulas restritivas, previstas em regimento interno de associação de proteção veicular ré, que estabelecem a) a perda do direito ao benefício em caso de evasão do local do sinistro e b) a obrigatoriedade de comunicação do sinistro no prazo de 30 (trinta) minutos após o acidente.

No caso, não se trata de típico contrato de seguro, mas de operação de proteção patrimonial mutualista (PPM), recentemente disciplinada pela Lei Complementar n. 213/2025, que alterou o Decreto-Lei n. 73/1966 para dispor sobre as sociedades cooperativas de seguros e as operações de proteção patrimonial mutualista.

Embora haja notória diferença entre os institutos, não se mostrando possível aplicar às operações de proteção patrimonial mutualista, indistintamente, as mesmas regras atinentes aos seguros tradicionais, nem as previstas no Código Civil nem aquelas dispostas na Lei n. 15.040/2024 em ambas as hipóteses, admite-se a aplicação das normas de proteção ao direito do consumidor, haja vista o entendimento predominante no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, de que "[...] a relação de consumo se caracteriza pelo objeto contratado [...], sendo irrelevante a natureza jurídica da entidade que presta os serviços, ainda que sem fins lucrativos" (AgInt nos EDcl no REsp nº 1.638.373/PR, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 29/4/2019, DJe de 6/5/2019).

Ademais, com as alterações promovidas pela LC n. 213/2025, as operações de proteção patrimonial mutualista passaram a estar também submetidas às regras da Superintendência de Seguros Privados (Susep), a quem compete, na qualidade de executora das diretrizes das políticas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), expedir instruções e demais atos normativos para a regulamentação das operações de proteção patrimonial mutualista e regulamentar as condições de planos de proteção patrimonial (art. 36, II e III, do Decreto-Lei n. 73/1966).

A propósito, no exercício dessa prerrogativa, o Conselho Nacional de Seguros Privados editou a Resolução CNSP n. 491/2026, que assim dispôs: "Art. 48. As administradoras e associações deverão conduzir suas atividades e operações relacionadas ao contrato de participação, no âmbito de suas respectivas competências, observando as normas previstas no Código de Proteção e Defesa do Consumidor e os princípios de ética, responsabilidade, transparência, diligência, lealdade, probidade, honestidade, boa-fé objetiva, livre iniciativa e livre concorrência, promovendo o tratamento adequado ao participante e o fortalecimento da confiança no sistema".

Nesse contexto, nos contratos de seguro de dano, uma cláusula que afasta o direito à indenização é abusiva se, embora formalmente apresentada como exclusão de cobertura, impede a realização da finalidade essencial do seguro, viola a boa-fé objetiva, surpreende o segurado ou impõe restrição desproporcional e incompatível com a legítima expectativa de cobertura. Já as cláusulas que apenas delimitam, de forma clara e razoável, os riscos efetivamente assumidos pela seguradora são, em regra, válidas.

Em linhas gerais, o mesmo raciocínio deve ser empregado para a proteção patrimonial mutualista, observadas as peculiaridades a ela inerentes.

No caso em discussão, a tese sustentada pela parte autora é a de que seriam abusivas as cláusulas que estabelecem a obrigatoriedade imposta ao associado de permanecer no local do sinistro e de comunicá-lo à associação no prazo de 30 (trinta) minutos após o acidente, sob pena de perda do benefício.

À luz do disposto no art. 51, IV e § 1º, do Código de Defesa do Consumidor, que, entre outras hipóteses, considera nulas de pleno direito as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que "[...] estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade", presumindo-se exagerada a vantagem que "[...] restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual" e "[...] se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso".

Com efeito, diversas circunstâncias podem justificar a saída do segurado/associado do local do acidente, a exemplo do risco à integridade física do motorista e demais envolvidos no acidente, da ameaça de violência, da necessidade de atendimento médico, da determinação da autoridade policial, da necessidade de desobstrução da via e da impossibilidade material de aguardar por longo período.

Em muitos casos, inclusive, a permanência no local do acidente pode representar aumento do risco ao próprio segurado, não se justificando a perda automática da cobertura, por não se compatibilizar com a boa-fé objetiva.

Tal disposição mostra-se ainda incompatível com a sistemática da Resolução CNSP n. 491/2026, que exige que as hipóteses de perda de direitos sejam redigidas de forma clara, compreensível e destacada, sob pena de nulidade (art. 38, § 2º), e determina que os riscos excluídos correspondam a eventos definidos e precisos, vedando generalidades que impeçam a identificação de situações concretas (art. 42).

Ademais, ao impor a perda integral da cobertura como consequência automática, a cláusula permite que mero descumprimento formal produza consequência patrimonial gravíssima, ainda que ausente qualquer prejuízo à regulação do evento ou nexo causal entre a conduta do associado e o sinistro.

Trata-se, portanto, de disposição que, ao restringir excessivamente o direito à garantia e impor desvantagem indevida ao participante, afronta os deveres de transparência, boa-fé objetiva e tratamento adequado previstos na própria regulamentação.

Semelhantes são as justificativas para se exigir a imediata comunicação do sinistro, de modo a permitir o envio rápido de assistência ou de regulador, coletar provas enquanto os vestígios ainda existem, facilitar a identificação de terceiros envolvidos e evitar que a demora na comunicação prejudique a investigação do evento, Assim, sob a ótica da boa-fé, o dever do segurado/associado é comunicar o sinistro em prazo razoável, sem demora injustificada, ainda que ultrapassado o limite imposto pela prestadora de serviço, muitas vezes fixado em tempo exíguo.

Nesse ponto, a Resolução CNSP n. 491/2026, em seu art. 22, foi categórica ao vedar a fixação de um prazo peremptório cuja inobservância implique automaticamente a perda integral da garantia.

Destarte, mesmo em se tratando de proteção patrimonial mutualista, e não de contrato de seguro, incidem, na espécie, os princípios da boa-fé objetiva e da proporcionalidade, revelando-se abusivas as cláusulas regimentais invocadas pela associação de proteção veicular, porque desproporcionais e incompatíveis com a legítima expectativa da cobertura.

Informações Adicionais

Legislação

Lei Complementar (LC) n. 213/2025.

Decreto-Lei n. 73/1966.

Resolução Conselho Nacional de Seguros Privados - CNSP n. 491/2026.

Código de Defesa do Consumidor (CDC), art. 51, IV e § 1º.

QUARTA TURMA

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Processo         

REsp 2.291.242-MG, Rel. Ministro João Otávio de Noronha, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 29/9/2026, DJEN 1/10/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Produção antecipada de provas. Cabimento de apelação contra sentença extintiva por ausência de interesse processual. Inviabilidade de prova. Recorribilidade. Direito à prova. Contraditório e ampla defesa.

Destaque

Em situações em que a sentença extingue a ação de produção antecipada de provas por ausência de interesse processual e inviabiliza integralmente a produção da prova postulada, admite-se a recorribilidade, por aplicação do art. 382, § 4º, do CPC, em respeito aos princípios do contraditório e da ampla defesa.

Informações do Inteiro Teor

A controvérsia consiste em saber se é cabível recurso contra sentença que, ao indeferir integralmente a petição inicial por ausência de interesse processual, inviabiliza totalmente a produção da prova na ação de produção antecipada, por violação do art. 382, § 4º, do CPC.

No caso, a parte autora pleiteou a realização de prova pericial para avaliar desvalorização imobiliária e delimitação do imóvel em relação à zona de autossalvamento, com a finalidade de autocomposição ou esclarecimento prévio dos fatos para eventual demanda futura. O Juízo de primeiro grau extinguiu o processo sem resolução do mérito, com fundamento no art. 485, VI, do CPC, por ausência de interesse processual. A Corte de origem, em apelação, não conheceu do recurso por entender irrecorrível a sentença no rito da produção antecipada de provas, ao fundamento de que o indeferimento da petição inicial por falta de interesse de agir não se amolda à exceção do art. 382, § 4º, do CPC, mantendo a distinção entre indeferimento total da prova e indeferimento da inicial por ausência de interesse.

A Terceira e a Quarta Turmas do Superior Tribunal de Justiça vêm adotando orientação segundo a qual a interpretação do art. 382, § 4º, do Código de Processo Civil não deve se limitar à literalidade do dispositivo quando disso resultar supressão do contraditório, da ampla defesa ou do próprio direito à prova. Assim, firmou-se o entendimento de que a limitação recursal prevista para o procedimento de produção antecipada de provas não impede a impugnação de decisões que versem sobre os próprios requisitos de admissibilidade da ação probatória autônoma ou que, em termos práticos, inviabilizem a produção da prova requerida.

À luz dessa orientação, a distinção traçada pelo acórdão de origem entre indeferimento da inicial por ausência de interesse processual e indeferimento total da prova não é suficiente, por si só, para afastar a recorribilidade. Isso porque a consequência concreta da sentença foi impedir integralmente a realização da prova cuja produção se pretendia antecipar.

Embora formalmente fundada na ausência de interesse processual, a decisão impugnada negou a própria admissibilidade da ação probatória autônoma e inviabilizou por completo a obtenção da prova requerida. Nessa perspectiva, a controvérsia recursal não se limita ao exame do pedido probatório em si, mas alcança justamente os pressupostos de cabimento da tutela probatória autônoma, hipótese para a qual a jurisprudência mais recente do STJ vem admitindo a recorribilidade, em atenção aos princípios do contraditório, da ampla defesa e do direito à prova.

Desse modo, ainda que a extinção do processo tenha sido fundamentada no art. 485, VI, do Código de Processo Civil, diante da inexistência de elementos mínimos aptos a demonstrar a necessidade e a utilidade do provimento jurisdicional pretendido, a consequência prática da decisão foi impedir integralmente a produção da prova postulada. Nessa situação, a limitação recursal prevista no art. 382, § 4º, do Código de Processo Civil não pode ser aplicada de forma a impedir o controle da própria decisão que afastou os requisitos de cabimento da ação probatória autônoma.

Informações Adicionais

Legislação

Código de Processo Civil (CPC), art. 382, § 4º e art. 485, VI.

Processo         

REsp 2.199.958-MG, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 31/8/2026, DJEN 4/9/2026.

 

Ramo do Direito         

DIREITO CIVIL

Inventário. Colação de bens. Herdeiros por representação. Imóvel transferido a netos por escritura pública de compra e venda. Negócio jurídico formalmente oneroso e materialmente gratuito. Doação indireta. Necessidade de colação. Dispensa apenas por declaração expressa do doador. Princípio da igualdade sucessória.

Destaque

1. A colação é dever imposto aos descendentes que concorrem à herança, inclusive quando sucedem por representação. Por esse motivo, sua dispensa em relação aos bens recebidos por doação somente se efetiva mediante declaração expressa e inequívoca do doador de que a liberalidade ocorre à conta da parte disponível de seu patrimônio, não constituindo adiantamento da legítima.

2. A formalização da transferência de bem em escritura pública de compra e venda, quando ausente comprovação de pagamento do preço, configura doação indireta, sujeita à colação, sendo irrelevante a roupagem jurídica adotada.

Informações do Inteiro Teor

A controvérsia consiste em definir se os netos da autora da herança, e herdeiros por representação de sua mãe, devem proceder à colação dos bens recebidos, inclusive daqueles transferidos mediante escritura pública de compra e venda, para que se apure se as liberalidades se deram à conta da legítima ou da parte disponível do patrimônio.

A colação constitui dever imposto aos descendentes que concorrem à herança, ainda que na condição de representantes de herdeiro pré-morto, com o propósito de preservar a igualdade entre os sucessores e evitar que liberalidades praticadas pelo autor da herança resultem em vantagem indevida a determinado ramo familiar (art. 2.002 do Código Civil).

Os herdeiros por representação sujeitam-se às mesmas obrigações do representado, inclusive quanto à colação de bens recebidos por doação ou por testamento, quando tais disposições incidirem sobre a legítima.

A jurisprudência do STJ é firme no sentido de que a existência de disposição testamentária não afasta, por si só, a obrigação de colação do bem ao inventário, devendo ser apurado se a liberalidade se deu à conta da legítima ou da parte disponível do patrimônio.

 

Dessa forma, para que se reconheça a dispensa da colação de bem doado em vida pelo de cujus, exige-se manifestação expressa e inequívoca de que a liberalidade se realiza à custa da parte disponível, seja no próprio testamento, seja na escritura de doação.

No caso, um dos imóveis foi transferido para o nome do neto e curador da filha interditada, mediante escritura pública de compra e venda. A despeito da forma jurídica utilizada, todavia, é pacífico o entendimento de que a qualificação do negócio deve atender à sua substância e não à denominação conferida pelas partes. Não existindo prova de contraprestação efetiva ou do pagamento do preço, impõe-se reconhecer a natureza de liberalidade subjacente à operação, caracterizando doação indireta sujeita à colação.

Para realizar a tentativa de conciliação entre os herdeiros e mensurar o real tamanho da herança, faz-se necessária a colação dos bens recebidos por testamento, inclusive para se saber se fazem ou não parte da legítima.

O fato de a transferência ter sido formalizada sob a aparência de compra e venda não afasta o dever de juntar aos autos, porquanto o princípio da igualdade sucessória prevalece sobre a forma do ato.

Assim, impõe-se reconhecer que os netos, herdeiros por representação, devem proceder à colação dos bens recebidos, incumbindo ao inventariante promover a avaliação e inclusão dos respectivos valores no monte partilhável, assegurando-se a observância da legítima e a igualdade entre os coerdeiros.

Informações Adicionais

Legislação

Código Civil (CC), art. 2.002.

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Processo         

REsp 1.775.540-RJ, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 31/8/2026, DJEN 3/9/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO CIVIL, DIREITO DIGITAL

YouTube. Conteúdo gerado por terceiro. Ofensa contra a honra. Remoção de conteúdo. Marco Civil da Internet. Art. 19 da Lei n. 12.965/2014. Ordem judicial específica. Necessidade de identificação clara e precisa do conteúdo apontado como infringente. Indicação de canal ou página inteira. Insuficiência. URL ou elemento técnico equivalente. Responsabilidade civil do provedor. Inaplicabilidade da teoria do risco. Ausência de responsabilização pela mera disponibilização da plataforma.

Destaque

A responsabilização civil do provedor de aplicações por conteúdo ofensivo gerado por terceiros pressupõe o descumprimento de ordem judicial específica que identifique, mediante URL ou elemento técnico equivalente, o conteúdo reputado ilícito, possibilitando sua localização precisa.

Informações do Inteiro Teor

A controvérsia consiste em definir se, para fins de responsabilização de provedor de aplicações e imposição de obrigação de remoção de conteúdo da internet, a ordem judicial deve conter indicação específica das URLs correspondentes aos conteúdos reputados ofensivos e ilícitos, nos termos do art. 19 do Marco Civil da Internet.

O art. 19 da Lei n. 12.965/2014 estabelece que, com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo ofensivo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências necessárias para tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, no âmbito e nos limites técnicos do serviço e dentro do prazo assinalado.

O § 1º do mesmo dispositivo exige que a ordem judicial contenha, sob pena de nulidade, identificação clara e específica do conteúdo apontado como infringente, que permita a localização inequívoca do material.

No caso, o Tribunal de origem entendeu que a lei não exigiria menção expressa à URL do vídeo, bastando a indicação do conteúdo do material. Essa conclusão não se harmoniza com a interpretação conferida pelo STJ ao art. 19 do Marco Civil da Internet.

A exigência de identificação clara e específica do conteúdo infringente tem por finalidade permitir que o provedor localize, de modo preciso, o material cuja indisponibilização foi determinada judicialmente, sem lhe transferir o ônus de monitorar, selecionar e valorar, por conta própria, conteúdos publicados por terceiros. A indicação genérica de canal, página ou conjunto amplo de publicações não equivale, por si só, à identificação inequívoca do conteúdo específico a ser removido.

A ordem judicial que não individualiza os materiais reputados ilícitos impõe ao provedor juízo próprio sobre a ilicitude de conteúdos variados, com risco de remoção excessiva, supressão de manifestações lícitas e indevida transferência da atividade jurisdicional ao particular.

O regime do art. 19 do Marco Civil da Internet não autoriza a responsabilização do provedor de aplicações pela simples disponibilização da plataforma, nem pela mera existência de conteúdo gerado por terceiro. A responsabilidade civil do provedor, nesse regime, é condicionada ao descumprimento de ordem judicial específica, que identifique de forma clara e precisa o conteúdo tido por infringente.

No contexto de vídeos publicados em plataforma eletrônica, tal requisito é atendido pela indicação da URL específica ou de elemento técnico equivalente que permita a localização precisa do material.

A responsabilização, portanto, não pode ser mantida com fundamento na teoria do risco da atividade nem em ordem genérica de remoção de conteúdo desacompanhada da adequada individualização dos vídeos reputados ofensivos.

Informações Adicionais

Legislação

Lei n. 12.965/2014, art. 19.

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Processo         

REsp 2.087.812-MG, Rel. Ministro Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 12/8/2026, DJEN 17/8/2026.

Ramo do Direito         

DIREITO CIVIL

Seguro de responsabilidade civil. Apólice com coberturas autônomas e limites próprios. Condenação por danos morais e danos corporais. Combinação de coberturas. Inviabilidade.

Destaque

Nos contratos de seguro de responsabilidade civil, é inviável utilizar a cobertura de danos corporais para complementar ou substituir a cobertura específica de danos morais, quando esta for prevista de forma autônoma e possuir limite próprio.

Informações do Inteiro Teor

Cinge-se a controvérsia a determinar se é possível utilizar, na vigência de contrato de seguro de responsabilidade civil, a cobertura de danos corporais para satisfação de indenização por danos morais, a qual tem previsão contratual autônoma e limite próprio.

Nos termos do art. 757 do Código Civil, o segurador obriga-se, mediante o pagamento do prêmio, a garantir interesse legítimo do segurado contra riscos predeterminados. O art. 760 do mesmo diploma exige que a apólice contenha a indicação precisa dos riscos assumidos, do início e do fim de sua validade e, sobretudo, dos limites da garantia. Da conjugação desses dispositivos extrai-se princípio elementar do direito securitário: a obrigação da seguradora é estritamente vinculada aos riscos expressamente contratados e aos respectivos limites máximos de indenização.

Hodiernamente, a distinção entre dano corporal e dano moral não é meramente conceitual, mas estrutural, do ponto de vista do risco assumido pela seguradora. Pode o segurado contratar, em valores que melhor lhe convier, as coberturas para dano material, corporal e moral, sem que haja entre elas qualquer tipo de comunicação pois trata-se de garantias autônomas e independentes.

No caso concreto, é incontroverso que a apólice prevê cobertura específica para danos morais, com limite próprio, distinto daquele estipulado para danos corporais. Ainda assim, o acórdão recorrido manteve condenação que, na prática, admite a utilização da cobertura de danos corporais para suportar indenização por dano moral, sob o fundamento de que este decorreria do evento lesivo.

Tal compreensão não se coaduna com a orientação do Superior Tribunal de Justiça, a qual é firme no sentido de que a seguradora responde nos estritos limites da apólice, sendo válida a cláusula que delimita sua responsabilidade ao valor máximo contratado, entendimento sintetizado na Súmula 537/STJ.

Ainda que reconhecida a solidariedade entre segurado e seguradora perante a vítima, tal solidariedade não tem o condão de afastar a delimitação contratual do risco, nem de impor à seguradora obrigação superior àquela que assumiu mediante o recebimento do prêmio correspondente.

Admitir que a cobertura de danos corporais possa ser utilizada para complementar ou substituir a cobertura específica de danos morais, quando esta existe e possui limite próprio, implica verdadeira combinação indevida de coberturas, em afronta direta aos arts. 757 e 760 do Código Civil, além de comprometer o equilíbrio técnico-atuarial do contrato de seguro.

Trata-se, em última análise, de impor à seguradora risco não contratado e não precificado, o que não se compatibiliza com a lógica do mutualismo que informa o sistema securitário.

 

Informações Adicionais

Legislação

Código Civil (CC), art. 757 e art. 760.

Súmulas

Súmula n. 537/STJ.